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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Quatro dicas de Gary Hamel para competir pelo futuro



Depois de fazer uma excepcional leitura do atual competitivo, Gary Hamel sugere os quatro comportamentos fundamentais das empresas do futuro. Veja como um dos maiores pensadores da administração espera que você se prepare!

No texto anterior vimos os obstáculos que as empresas enfrentarão no cenário competitivo nos próximos dez anos, segundo as palavras de Gary Hamel na HSM ExpoManagement 2010. Conheceremos agora suas dicas para que as companhias possam fazer frente a tais desafios - ou oportunidades?


1. SEJA OUSADO, TENHA AMBIÇÕES ELEVADAS


Se você não mirar alto, não vai acertar alto. Levantar a barra significa estabelecer objetivos arrojados que lhe puxem sempre para cima, mantendo ambições elevadas. Sem descambar para a megalomania, é preciso lembrar que grandes objetivos nem sempre resultam em grandes avanços, mas pequenos objetivos nunca resultam.

A GE, por exemplo, ainda no tempo de Thomas Edison, focando na sua eficácia, articulou o primeiro departamento de Pesquisa & Desenvolvimento em escala industrial, estabelecendo diretrizes que seriam padrão no mundo corporativo por muito tempo - e responsáveis por diversas inovações que permanecem em nossas casas até hoje.

Resultados excepcionais, no entanto, não são atingindos percorrendo os mesmos caminhos de sempre. Daí o próximo item.


2. QUESTIONE OS DOGMAS


Desde o texto anterior Hamel já dizia que as condições nas quais as empresas competem mudam em ritmo acelerado. É preciso, então, reinventar-se repetidae rapidamente. Inovar, buscar novas formas de alcançar objetivos - aliás, objetivos mais ambiciosos, certo? Deve-se, assim, romper com o passado e abraçar o futuro, por mais estranho que ele possa parecer.

A Gore1, por exemplo, aboliu as estruturas hierárquicas dentro da companhia, ficando apenas com alguns líderes e a figura do CEO. Segundo sua filosofia, não adianta apontar um líder que as pessoas não aceitem seguir. E isso acontece, de fato, porque lá ninguém é obrigado a seguir uma ordem. Mas como os líderes são escohidos, então? Ora, se alguém convoca uma reunião - à qual ninguém é obrigado a ir - e ela tem quórum, então essa pessoa provavelmente tem potencial para liderar.

3. ENCONTRE AS FRONTEIRAS


Como começa a maioria das pesquisas de mercado que uma empresa faz quando quer lançar um produto, ou mudar um que já tenha. Antes que você responda, repito a advertência de Hamel: não faça benchmark! Nunca vi ninguém começar um estudo de concorrentes dizendo: 'vamos ver o que eles fazem para fazer exatamente o oposto".

Seus concorrentes dificilmente lhe apontarão uma direção - especialmente se você está preparando o lançamento de algo inédito, num mercado inexistente. Só quem pode fazer isso são os seus clientes.

São os "clientes", aliás, que constroem toda a hierarquia da Web. As interações dos usuários é que determinam o que é melhor ou pior, o que sobe e o que desce. Outros mercados também funcionam assim e as empresas precisam começar a entender esta linguagem.

Na HCL2, por exemplo, todos os funcionários avaliam seus gestores, os gestores dos seus gestores e assim por diante. E todos os gestores são responsáveis pela satisfação de seus subordinados. Qualquer descontentamento é veiculado num canal de comunicação público e deve ser resolvido em até 24 horas - ou será escalado. Nenhum cargo representa, portanto, imunidade na busca pela integração perfeita entre os colaboradores. Só uma empresa que conhece seus limites e suas fronteiras pode se dar ao luxo de ignorá-los.

4. EXPERIMENTE

Quando tentamos fazer coisas novas - ou antigas, mas de uma maneira diferente -, nós saímos da nossa zona de conforto e passamos a navegar por águas desconhecidas. Esta mudança dispara os sistemas de medo do cérebro, que podem impedir a pessoa de agir.

Em O Iconoclasta, o neurologista americano Gregory Berns explica que as pessoas que fazem o que os outros diziam que não poderia ser feito - os iconoclastas - sabem lidar melhor com seus medos e, por isso, não têm medo de experimentar. Ou às vezes não têm escolha mesmo.

A DuPont foi a pioneira em se departamentalizar, ou seja, dividir suas operações em várias unidades de negócio - e foi seguida depois pela GE - focando na eficácia de cada business unit.

A Best Buy - gigante americana no varejo de eletrônicos - aposta na sabedoria coletiva de seus funcionários para elaborar suas previsões de venda. O inovador processo, descrito por James Surowiecki em A sabedoria das multidões, conseguiu levar a taxa de acerto do forecast de 93% para 99,9%!

Recentemente a tradicional IBM também deixou alguns dogmas do passado para trás e, num movimento inédito, submeteu seu planejamento estratégico à avaliação pública. Sua ousada iniciativa rendeu nada menos do que 300.000 comentários, naquilo que se convencionou chamar de crowd strategy.

Já no Google, inovador por natureza, não existe mais a gerência média: cada gerente sênior tem até 60 reportes diretos (eles dizem que num grupo com mais do que isso, as pessoas perdem a sua identidade).

* * * * * * * * * *

Mais do que uma característica marcante da cultura corporativa, a inovação passa a ser uma necessidade competitiva. Pois quando você encontra problemas sem precedentes, você precisa de soluções sem precedentes. E são estas inovações que haverão de reinventar a Tecnologia da Administração na próxima década. Uma década que deixará para trás palavras como valor, qualidade, crescimento, liderança, diferenciação, excelência e, possivelmente, adotará prazer, beleza, verdade, honra, sabedoria, justiça. Pois não há como inspirar pessoas se você se baseia em princípios pobres.

E deixo agora para o fim a pergunta que Gary Hamel fez logo no início de sua palestra: se você fosse um CEO iniciante e precisasse criar a sua empresa do zero, como ela seria? O que seria diferente do lugar onde você trabalha hoje?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Os profissionais liberais saem da faculdade preparados para empreender?

  Divulgação

As faculdades continuam formando profissionais operacionais, que entendem da técnica, mas não sabem como administrar o próprio negócio

Por André Acioli 
 
Globalização, concorrência de onde menos se espera, necessidade de encantar o cliente, velocidade de obsolescência da tecnologia, foco, relacionamento... nós, profissionais liberais que atuamos no mercado, somos engolidos por suas tendências, conceitos e preconceitos. Bem verdade, não se discute a necessidade de adequação do profissional dos dias de hoje às condições requeridas pelo mercado em que está inserido. 

As faculdades continuam formando profissionais operacionais. Eu explico. Excetuando-se uma ou outra carreira numa meia dúzia de instituições, os cursos de graduação disponibilizam ferramentas e conhecimentos para que o novo profissional saiba fazer, executar operacionalmente as tarefas e atividades inerentes ao exercício da carreira escolhida. Assim, advogados entendem da elaboração de petições, dentistas, do manuseio de boticões e brocas, médicos, da identificação de anormalidades no funcionamento orgânico, engenheiros civis, dos recursos e cálculos necessários para sustentação de um prédio – isso só para citar, de forma simplista, alguns exemplos de atividades e de profissionais.

Eis que o novo profissional se vê no mercado. E aí? O que vai fazer? Nem todos tiveram a sorte ou sabedoria de se preparar para esse momento; nem todos quiseram (ou puderam) ser estagiários; muitos preferiram investir na capacitação técnica que seus cursos ofereciam. Um bom número desses novos profissionais, com muito esforço e sacrifícios (nem sempre seus), conseguem capital para abrir o próprio negócio: o consultório, o escritório ou seja lá o que for. Logo na largada deparam-se com os primeiros percalços: como e o que fazer para abrir um espaço de trabalho? Contratam despachantes – categoria profissional que, pelo que sei, só existe aqui no Brasil – e, finalmente, têm seus contratos de locação, alvarás, autorizações, inspeções e tudo o mais necessário para funcionar. Precavidos, possivelmente orientados por um profissional mais experiente, pai ou amigo, reservaram algum recurso para esse momento. 

Telefone funcionando, computador e impressora a postos, mobiliário comprado em suaves prestações, aquela amiga do amigo, ‘gente fina’ e competente, até então desempregada, agora é secretária executiva. Sala pintada e finamente decorada pela mãe ou pela namorada, quando a primeira permite. Nome impresso, na laser do amigo, em cores, quando ainda há a alternativa da jato de tinta de casa. Para atrair compradores de seus serviços, um folheto tamanho 10×15, impresso em quatro cores e gramatura 75; lindo e barato. Um trabalho de primeira, feito pelo primo que tem habilidades incomuns num editor gráfico que o ‘contratante’ sequer sabe o nome.

A primeira semana é intensa; as visitas não param. Vem mãe, pai, tios, primos, vizinhos. Os amigos da faculdade também aparecem, esperando a reciprocidade da visita. Clientes? Não, clientes ainda não. E o tempo passa…

Creditando à má sorte a demora na captação, o novo profissional – agora já não tão novo -segue a árdua rotina de empreendedor. Alguns, menos perseverantes, pensam na alternativa de seguir carreira pública e enveredam nos caminhos de cursinhos preparatórios e provas. Outros, mais aguerridos, insistem no ideal de sucesso em carreira solo.

Isso me lembra a história de um amigo que, cansado da insistência da mulher em querer que lhe fosse comprado um carro, foi à concessionária e comprou um zero quilômetro para ela. A esposa ficou radiante com o presente, mas lembrou que não sabia dirigir.

Nossos cursos de graduação fazem mais ou menos isso com seus formandos. Semestre a semestre, dão-lhes partes dos respectivos carros novos para montar, mas não lhes mostram atalhos para aprender a dirigir. Isso, na maior parte das vezes, somente será aprendido em cursos de pós-graduação.

O novo profissional, cedo ou tarde, ‘fará o carro andar’. Serão necessárias muitas ‘barbeiragens’ até que dirija razoavelmente. Terá clientes. Conseguirá até reter alguns; provavelmente, após outras barbeiragens. Longe de qualquer hipocrisia, todos sabemos disso: você, eu e, claro, os gestores universitários.

Ao que parece, a ideia da continuidade presente nas grades curriculares dos cursos de graduação superpõe-se ao ideal de uma formação ideal e submete os ‘novos’ aos mesmos rituais pelos que passaram os ‘antigos’, como que numa sequência infinda de trotes em calouros sendo que, nesse caso, por omissão, são os mestres, os algozes.

Se o amigo leitor é um recém formado ou está no curso dessa peregrinação para o sucesso, permita-me duas dicas: procure em sua rede de relacionamentos (se não tem, comece agora mesmo a construir uma) algum contato que tenha sólidos conhecimentos em marketing. Por favor, não vá aqui, cair na armadilha do “barato que sai caro” e promover alguém inabilitado ao posto. Se não encontrar um bom profissional de marketing na sua rede, contrate. Nessas horas, contratar é uma boa opção, pois favores nunca dão certo!

Se você tem tempo e é daqueles abertos a novos conhecimentos, invista em você. Dispa-se de qualquer preconceito e procure entender melhor como o marketing pode ajudá-lo a chegar aonde você quer. Você pode optar pelos livros (há vários bons livros) ou por cursos de extensão; deixe os de maior duração para quem pretende atuar especificamente nessa área. 

Existem alguns (poucos, mas bons) cursos que atenderão às suas necessidades para alavancar o seu empreendimento. Sem dúvida, de todos os investimentos que você vier a fazer depois de formado, desenvolver o marketing profissional será o melhor. Não hesite, há diversos profissionais que se mostram iguais a você; oferecem serviços iguais aos seus; instalados em espaços similares ao que você ocupa e que buscam o mesmo cliente que você. Sair na frente, então, pode fazer toda a diferença. 

Acorde! 

* André Acioli é administrador, consultor de empresas, professor universitário e do Boteco do Conhecimento

Fonte: Revista PEGN 

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Na busca do gol do mercado de trabalho, o que falta são bons jogadores


É interessante analisar a dinâmica do mercado de trabalho, comparando-o com o nosso calendário. É sabido que todas as atividades profissionais passariam por algumas adaptações no período da Copa, porque os brasileiros tem que parar para assistir os jogos, mesmo aqueles cujas seleções não são expressivas.

Assim, vi agendas de trabalho serem montadas de acordo com a agenda dos jogos. Como consultora de RH, recebi vários pedidos de "por favor, poderia não agendar a entrevista em tal dia, tal horário? É que eu não gostaria de perder o jogo X, Y ou Z".

Então, comecei a me perguntar: o que é melhor para o brasileiro? Estar empregado ou assistir a um jogo, onde os jogadores envolvidos não tem conhecimento da situação desse torcedor e, muitas vezes, ganham salários que nunca iremos receber, merecendo muito menos...

Então, no site do UOL, leio a seguinte manchete: "Procura por emprego cai até 20% em SP durante a Copa".

É normal haver uma queda na procura de emprego em semanas onde existem feriados, principalmente os prolongados. Mas, uma queda em um período extenso, como é o do Mundial de Jogos, é mostrar que um dos problemas da falta de emprego está relacionado à falta de foco e senso de prioridade do brasileiro.

Afinal, sabemos que a busca de um emprego é tão trabalhosa quanto muitos projetos desenvolvidos dentro das organizações para as quais trabalhamos. Envolve planejamento, tempo, custos, planos A e B, foco no resultado e objetivos claramente definidos.

Mas, aparentemente, a grande maioria dos profissionais em busca de uma nova oportunidade não se deram conta disso - ainda. E, acredito, esta deve ser uma das causas por que muitos profissionais permanecem meses no mercado de trabalho, buscando uma nova colocação e não conseguem.

Depois, vão para fóruns de discussão, LinkedIns, jornais ou rodas de bate papo entre amigos se lamentar, colocar a culpa no Governo, nas empresas, consultorias e profissionais de RH.

Nosso post de ontem, sobre a escassez de profissionais no mercado, pode muito bem ser interpretado como direcionado para a escassez de vagas no mercado, uma vez que diagnostica que os profissionais que buscam uma nova colocação precisam ter é mudança de atitude! 

E essa mudança deve iniciar-se através da adoção de uma postura mais assertiva, mais empreendedora, mais ousada até.  O dia a dia organizacional pede pessoas inovadoras, mas é complicado ver inovação em profissionais que se mantém presos em atitudes conservadoras e tradicionais, pautadas em comportamentos que eram comuns há 20, 25 anos. 

O cenário é bastante dinâmico e os profissionais que buscam novas oportunidades devem ser igualmente dinâmicos e saber identificar e agarrar as oportunidades. A procura por emprego pode ter caido, mas a oferta não! 

Pensem nisso...



quarta-feira, 23 de junho de 2010

Uma reflexão inteligente sobre o mercado de trabalho


Por que há escassez no mercado?


Por Gilberto Wiesel - Revista Carreira e Negócios



O que diferencia empresários como Eike Batista e Carlos Slim dos que não possuem perspectivas de sucesso
Muito se ouve falar sobre o perfil que deverá ser característico do trabalhador do futuro: dinâmico, inovador, atencioso e extremamente tecnológico. Então, se todos conhecem e sabem que esta é a tendência no mercado, por que um grande número de empresas se depara com problemas na hora de contratar o colaborador?

Segundo pesquisa realizada pela Manpower, empresa líder mundial no segmento de serviços em recursos humanos, com 39 mil gerentes e diretores de RH de 33 países, 30% deles afirmaram que encontram dificuldades em preencher as vagas disponíveis em suas empresas. Para eles, o principal motivo dessa preocupante demanda é uma forte escassez de talentos. Já na America Latina, 36 % dos empregadores relacionam esse fato à falta de mão de obra qualificada.

Mas, se pensarmos em dinheiro para investir em desenvolvimento e tecnologia necessários para se inovar, podemos afirmar que existem em abundância esses recursos no mundo. Então, o que impede a existência de pessoas capacitadas para liderar esses bens?

Como revelado no estudo, faltam empreendedores capacitados para atender a essa necessidade do mercado. Por que não temos mais profissionais, como o empresário Eike Batista, no comando de empresas? O brasileiro acaba de ser incluído no seleto grupo do capitalismo global, ao lado de ilustres como o americano Bill Gates, criador da Microsoft, e o mexicano Carlos Slim, dono de um empreendimento de telecomunicações.

Desta forma, se analisássemos o perfil empresarial de Eike, talvez assim entendêssemos essa falha na área de recursos humanos. São poucos os que cultivam características iguais às do empreendedor. Inovador, dinâmico, audacioso e ousado, cada uma dessas qualidades foram colocadas em prática pelo empresário, com muita inteligência. Além de captar recursos na Bolsa de Valores, Eike empenhou-se em criar novas empresas de óleo e gás, logística, mineração e construção naval, sem nunca perder de vista o custo e retorno desse investimento.

Alguns profissionais tendem a se esquecer de que o rendimento da empresa também depende de fatores externos. Esses líderes precisam ir atrás de alternativas que atendam as necessidades de sua instituição. Permanecer na inércia enquanto empresas à sua volta crescem, não fará com que você lidere algum índice de vendas. É preciso criar novos caminhos para seus empreendimentos e entender que eles só chegarão a um destino grandioso se o guia estiver preparado para a caminhada.

Entender que o espírito empreendedor é o principal fator de produção nesta nova ordem econômica mundial tende a ser o que diferencia um empresário de um Eike Batista. Assim, muitas empresas criaram, junto ao seu departamento de recursos humanos, ações para reter talentos em suas instituições. Mas, para que isso aconteça, eles precisam encontrá-los.

Gilberto Wiesel é empresário, administrador de empresas pós-graduado em marketing pela FGV. é master-practitioner em Programação Neurolinguística pela Sociedade Brasileira de PNL e membro da Time Line Theraphy Association, Hawai-USA. É escritor, conferencista e diretor dor Grupo Wiesel, que atua na área de Educação Corporativa

terça-feira, 18 de maio de 2010

Empreendedorismo profissional: descubra o que é isso

Muito se tem discutido a respeito das opções existentes no mercado de trabalho para profissionais sêniores. Lendo ontem o artigo do Info Money, percebi que as opções existem, se são muitas. Os profissionais têm é que estar atentos às demandas do mercado, ter conexões e ousar.

Convido os leitores a conhecer um pouco mais da proposta de nova modalidade de trabalho indicada no texto reproduzido abaixo.

Empreendedores profissionais: quem são e o que querem?


Para quem acompanha de longe o mundo corporativo, deixar um cargo de alta gerência em uma grande empresa para assumir outra, em processo de falência, parece loucura. Porém, para Lourival Kiçula não foi tão difícil sair da presidência da Sanyo do Brasil, em 1998, para assumir a Tec Toy, que estava em concordata. Ele não sabia, mas naquele momento tornava-se um empreendedor profissional.

“Esse profissional escolhe sair do mundo corporativo para tomar a frente de uma empresa, não como dono, mas como gestor”, afirma Flavia Gisela Wahnfried, líder da prática de Executive Search da Piccini & Fumis Consulting and Management. O que parece ser um perfil de líder padrão, porém, se diferencia pelos motivos e forma como assume o negócio. “O empreendedor profissional é aquele que sai do mundo corporativo quando o desejo por desafio é maior que o oferecido na empresa onde ele trabalha”, explica.

Foi o desafio que fez Kiçula, hoje presidente da Eletros (Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos), sair da empresa onde trabalhou durante oito anos, e mantinha uma carreira sólida, para gerir uma outra em condições não tão estáveis assim. Em 1998, a Sanyo estava em processo de mudanças. Querendo sair da rotina que ele se impôs ao longo dos anos, Kiçula aproveitou o momento e saiu. “Eu não queria zona de conforto”, afirmou.

Foco: desafio

Quando se desligou da empresa, Kiçula recebeu quatro propostas para assumir cargos de gestão. Das quatro, a Tec Toy apresentava o pior quadro. Mas foi o que ele escolheu. “O que me encantou era justamente o desafio. Concordata em andamento é uma loucura, mas eu confiava na empresa e no produto”, explica, pontuando que contou com a total confiança dos acionistas da empresa para atuar da forma que achava correta. “Como ninguém faz nada sozinho, eu formei uma equipe de primeira, que eu confiava”.

Essa confiança na empresa, no negócio, na equipe e em si mesmo revelam mais um traço do empreendedor profissional. “De maneira geral, o empreendedor profissional tem uma experiência consolidada em grandes empresas e utiliza os conhecimentos que adquiriu para aplicar em produtos e negócios que confia”, explica Flavia.

Mas então por que não abrir o próprio negócio? Para a especialista, esse é mais um ponto que diferencia os empreendedores profissionais. “Os empreendedores profissionais não abrem o próprio negócio porque o que interessa para eles é justamente o processo de gerir uma empresa em formação”, diz. Além disso, ela cita que muitos simplesmente não tiveram uma grande ideia a ponto de abrir uma empresa. “Ou mesmo porque ficaram confusos com tantas opções”, considera Flavia. “ Ele quer entrar no grande momento do negócio, que é fazer ele ter sucesso”.

Kiçula teve sucesso. Conseguiu recuperar a Tec Toy e deixou a empresa há quatro anos em boas condições para continuar no mercado. “Só pela satisfação de tirar a empresa da concordata fez a experiência valer a pena”, pontua.

Insatisfação é peça-chave

Como Kiçula, muitos outros profissionais experientes no mercado ficam insatisfeitos com a situação do ambiente onde atuam, assim como são muitos os que permanecem nessa situação por não vislumbrarem alternativas. Kiçula soube o momento certo de mudar o rumo da carreira. Mas esse ponto não é igual para todos. “O momento certo é o de cada um, mas geralmente ocorre quando há maturidade profissional”, explica Flavia.

Ela ressalta que as motivações para que um profissional se torne um empreendedor profissional são pessoais. Além da insatisfação no trabalho, eles também buscam, nesse novo rumo da carreira, mais espaço para atuar e mais estímulo para criar. Mas a mudança, mesmo que atraente, não é fácil. Para tanto, é preciso maturidade emocional, uma vez que cenários que envolvam instabilidade geram questionamentos por parte da família.

Não foi o que aconteceu com o presidente da Eletros. A esposa e os sete filhos apoiaram a decisão. A família de Kiçula não duvidou que a empreitada não daria certo - nem ele mesmo. “Em nenhum momento eu questionei a minha decisão”.

Empreendedor profissional no mercado

Para Flavia, a diferença entre o empreendedor tradicional e o profissional é clara. Enquanto o tradicional não está envolvido no negócio total da empresa, o empreendedor profissional acompanha cada passo do processo de crescimento. “Ele tem uma atuação mais ampla e com mais desafios”, completa.

Porém, no mercado, essa diferença ainda não está clara. “O que percebemos é que os empreendedores tradicionais não conhecem o perfil do empreendedor profissional. Isso ainda está se difundindo no mercado”, afirma Flavia.

Segundo ela, aqueles que abrem um negócio chamam profissionais de confiança para ajudá-los a gerir. Se ele não restringir a atuação desse profissional, ele contratou um empreendedor profissional mesmo sem conhecer essa denominação. “A demanda por esse perfil, existe. Quem está abrindo um negócio quer um empreendedor qualificado para ajudá-lo. Mas é preciso explorar o potencial desse perfil, para que ele seja um empreendedor profissional”, explica Flavia. "O mercado ainda não está preparado".